Enquanto o mercado gasta até 40% do tempo em retrabalho, a periferia entrega projetos com orçamento enxuto e resultado consistente. E esse talento continua invisível para a maioria das agências.
Seis meses atrás, escrevi sobre a gestão invisível da favela. Mostrei que, enquanto o mercado busca metodologias importadas e frameworks caros, os territórios periféricos já praticam gestão de impacto real, com método, profundidade e resultado. Hoje quero ir além. Não para repetir o ponto, mas aprofundá-lo com um recorte específico: o gerente de projetos que a sua agência ainda não contratou, e por que isso está custando caro.
O retrato de um mercado com febre
Começo com uma foto 3x4 da indústria. O COR Report 2024, que ouviu mais de 500 executivos de agências no mundo inteiro, revelou algo que todo gestor sente na pele, mas prefere não encarar:
- 35% das agências não rastreiam detalhadamente as horas investidas em cada projeto
- 42% desconhecem as horas faturáveis e não faturáveis da própria equipe
- Entre 15% e 40% do tempo das equipes é gasto em retrabalho
- 70% das agências raramente renegociam orçamento com os clientes, mesmo quando o escopo muda
- 61,2% dos profissionais não permanecem mais de 4 anos na mesma agência
São dados de 2024. Não de 2014. E esse retrato não é de uma crise pontual. É de um problema estrutural no modelo de negócio, como o próprio relatório aponta. A unidade de venda de uma agência são horas. Mas a maioria não sabe para onde essas horas estão indo.
E antes que você pense que estou aqui para apontar o dedo: não estou. Conheço bem as dores de uma agência. Já vi de perto equipes talentosas, criativas e exaustas tentando equilibrar cliente que muda o briefing, prazo que aperta e orçamento que não fecha. Não é incompetência. É um sistema desenhado para pressionar, não para funcionar.
Mas enquanto o mercado tenta consertar as engrenagens de dentro, existe um grupo de profissionais que já nasceu resolvendo exatamente esses problemas. E que a grande maioria das agências ainda não descobriu como contratar.
Na gestão de projetos periféricos, algumas regras são diferentes
Primeiro ponto é que não existe orçamento "perdido". Comecei o Jornal Espaço do Povo em 2007 com quase nada. Uma gráfica amiga, um empurrão de um negócio de telefonia por IP (visionário para a época, diga-se), um punhado de colaboradores voluntários e a convicção de que a informação transforma. Cada real tinha nome, sobrenome e justificativa. Não porque eu fosse um gestor nato, mas porque não existia margem para erro.
Essa é a realidade de 12.380 favelas no Brasil. Líderes comunitários, produtores culturais e gestores de projetos sociais operam diariamente com orçamentos 5 a 10 vezes menores que os de uma agência, e entregam resultado real porque aprenderam, na prática, o que muitas empresas ainda buscam em consultorias caras: fazer mais com menos não é slogan, é competência.
Outro ponto a se considerar é que a equipe muda a cada projeto. Na agência, você tem um organograma. Sabe quem é o redator, o diretor de arte, o atendimento, o planner. Na quebrada, o time se forma em função da demanda e se desfaz quando o projeto acaba. Isso não é desorganização. É adaptação contínua, leitura de contexto e capacidade real de execução.
E aqui vale um ponto importante. O mercado pode, sim, aprender essas competências. Elas não pertencem a uma reserva de mercado, nem estão interditadas a quem vem de outros contextos. Treinamentos, workshops, cursos e salas de aula têm papel importante nesse processo. Muitas vezes, é justamente nesses espaços que começa uma mudança: quando se coloca todo mundo na mesma sala, se instrumentaliza as pessoas, se cria linguagem comum e se estabelece um compromisso coletivo de fazer diferente. A formação não resolve tudo sozinha, e ninguém sai automaticamente de um treinamento como grande gestor ou grande líder. Mas esses momentos têm poder. Podem ser faísca, renovação, alinhamento e ponto de partida.
O que este texto propõe não é desqualificar a aprendizagem formal. Pelo contrário: quanto mais letramento, mais repertório e mais abertura para rever práticas, melhor. O ponto é outro. Quem enfrenta diariamente os desafios que moldam essas habilidades costuma desenvolver mais rapidez de leitura, mais conhecimento de causa e mais reconhecimento prático do que precisa ser feito quando o cenário muda.
O líder periférico gerencia pessoas que não estão num contrato CLT nem num cargo fixo. Ele aloca talento conforme a necessidade, negocia engajamento sem hierarquia formal e mantém a entrega no prazo porque a comunidade não aceita desculpas. Entrega? O bairro vê. Não entrega? Todo mundo sabe. Não existe "realinhamento de escopo" com o cliente quando o cliente é a sua própria vizinhança.
Terceiro, mas não menos importante, a escuta ativa como ferramenta de gestão tem lugar central. O COR Report mostra que 1 em cada 2 agências não rastreia adequadamente os desvios de tempo entre o vendido e o executado. E 70% raramente sentam com o cliente para renegociar.
Na quebrada, a conversa acontece todo santo dia. O líder comunitário não espera o fim do mês para saber se o projeto está no azul. Ajusta em tempo real porque sente o ritmo do território. Escuta o comerciante que percebeu a circulação de renda cair. Escuta a mãe solo que administra a casa com um salário mínimo e entende, na prática, princípios que Amazon e Google estudam em seus manuais.
Essa escuta qualificada não é caridade. É inteligência operacional. E gera entregas mais rápidas, eficientes e conectadas com a realidade.
Números que deveriam acender um alerta
Uma pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV) sobre a Lei Rouanet revelou que 88,86% da captação de recursos está concentrada em regiões que reúnem apenas 17% da população, enquanto as periferias, onde vive mais da metade dos brasileiros, recebem 1,38% dos recursos.
Não é só uma distorção da política cultural. É uma metáfora exata do que acontece com o talento: o dinheiro e a oportunidade estão concentrados onde sempre estiveram, enquanto a capacidade de entrega está pulverizada nos territórios que o mercado ainda não aprendeu a enxergar.
Do outro lado, a economia periférica movimenta R$ 330 bilhões por ano, segundo o Sebrae. Exemplos como o Hub Atividade, no Rio Grande do Sul, um ecossistema de aceleração sociocultural que oferece mentorias em gestão, captação e sustentabilidade para coletivos periféricos, mostram o que acontece quando esse potencial encontra estrutura.
Em Porto Alegre, o Hub nasceu da Associação da Cultura Hip Hop de Esteio. Oferece coworking, estúdio multimídia e rodadas de negócios que conectam coletivos a compradores e parceiros estratégicos. O resultado? Não é só impacto social. É geração de renda, emprego e conexão com o mercado formal.
O que falta não é talento, é ponte
Se você leu até aqui, talvez pergunte: "Ok, Joildo, mas o que eu faço com isso?"
A resposta é mais simples do que parece.
Se você é gestor de agência, olhe para os seus processos com honestidade. Quanto do tempo da sua equipe realmente gera valor? Quanto é retrabalho disfarçado de "alinhamento"? Quantas horas são vendidas e quantas são efetivamente executadas?
Agora, imagine alguém que já nasceu fazendo gestão do imprevisível. Alguém que não precisa de manual para lidar com escopo que muda, prazo que aperta e orçamento que não fecha, porque aprendeu na prática que não existe projeto perfeito, existe projeto bem gerido.
Esses profissionais existem, espalhados por territórios periféricos, gerindo projetos culturais, sociais e comunitários com eficiência que qualquer diretoria gostaria de ter. Isso não significa que o mercado não possa aprender, evoluir ou se preparar melhor. Pode, deve e precisa. E cada curso, oficina, treinamento ou espaço de troca pode abrir esse caminho. Mas também é inegável que há profissionais que chegam com esse repertório já amadurecido pela experiência, testado na pressão e reconhecido no território.
Contratar esse profissional não é responsabilidade social. É vantagem competitiva.
Não estou aqui para apontar o que falta na sua agência. Estou aqui para mostrar o que já está disponível e que poucos estão vendo. Da mesma forma que o mercado de comunicação demorou a entender que a periferia não é só público consumidor, é também produtora de conteúdo, criadora de tendência e formadora de opinião, está na hora de enxergar que ela também é celeiro de talento em gestão.
O gerente de projetos que a sua agência ainda não contratou está numa comunidade, gerindo um projeto com R$ 30 mil que entrega o que um projeto de R$ 300 mil não consegue.
Ele está pronto.
Você é que ainda não foi buscar.
Joildo Santos
Comunicador e fundador do Grupo Cria Brasil e do Instituto Crias. Trabalha na democratização da comunicação e na produção de conhecimento que emerge das favelas e periferias do Brasil.