De repente, me parece que aprender a lidar com a exaustão se tornou uma tarefa fixa no meu quadro Kanban.
Depois de anos transitando por diferentes organizações, equipes e papéis de liderança, percebi que existe uma experiência silenciosa compartilhada por muitos de nós: as entregas relacionadas ao trabalho acabam, pouco a pouco, se misturando às que dizem respeito ao nosso próprio autocuidado e à busca por aprender a manter o equilíbrio diante da intensidade das demandas diárias. E, quase sempre, é justamente essa segunda categoria que passa a acumular os maiores atrasos.
Ao longo da minha trajetória, aprendi que conviver com a sensação de que o tempo deixou de nos dar tempo, com a escalada das exigências e com a sensação persistente de nunca conseguir dar conta de tudo o que ultrapassa meus limites de sustentabilidade, deixou de ser uma circunstância isolada. Tornou-se um reflexo da forma como grande parte da cultura corporativa passou a operar.
Não escrevo estas linhas como um desabafo, escrevo porque, ao observar minha própria caminhada e conversar com colegas, líderes e profissionais de diferentes áreas, percebo que essa sensação deixou de ser individual. Ela revela um modelo de trabalho que, por muito tempo, valorizou a produtividade acima da capacidade humana de sustentar esse ritmo.
Não me leve a mal. A ideia aqui não é trazer drama para a sua leitura, mas iniciar uma reflexão honesta sobre o momento que estamos vivendo. Afinal, talvez a exaustão não seja apenas um problema de quem não consegue administrar o próprio tempo, mas um sintoma de uma cultura que, durante anos, confundiu disponibilidade absoluta com comprometimento, excesso com excelência e a capacidade de suportar qualquer carga com resiliência.
Sim, o crescimento é necessário e ele pede por um esforço e dedicação mais intensa
Importante dizer que a expansão e crescimento profissional, e de fato, da vida, é lugar de morada de um período de desconforto e dedicação acentuada necessários para sair de um ponto A e se mover a um ponto B. Esse strech e impressão maior de força operacional e mental é necessário e importante para sairmos da zona de conforto e avançarmos para novos caminhos, novos desafios e, principalmente, novas habilidades pessoais e profissionais que ainda não nos era familiar e conhecida.
Mas não consigo evitar de me questionar:
- Será que as pessoas estão lembrando que o crescimento profissional, assim como na atividade física, tem no descanso e recuperação a mesma importância do que a ação e tensão gerada pela esforço?
- Será que estamos lembrando que tensionar um músculo de forma constante e por um tempo demasiado prolongado provavelmente irá criar uma ruptura das fibras e gerar um tecido doente e lesionado?
- Será que podíamos falar um pouco menos de IA e mais sobre aquilo que nos torna humanos: nossa vulnerabilidade, nosso cansaço, nossa criatividade e nossa necessidade de pausa?
Em meio às discussões sobre o futuro do trabalho, talvez seja hora de recolocar as pessoas no centro da conversa
Rick Rubin, autor do livro “O Ato Criativo: Uma Forma de Ser”, nos deixa uma dica infalível e necessária em dias que a originalidade se sente ameaçada. Ele diz: Your difference is your advantage. The goal is not to fit in… Instead of sounding like others, value your own voice.” Traduzindo, ele nos fala que a “Sua diferença é a sua vantagem. O objetivo não é se encaixar... Em vez de soar como os outros, valorize a sua própria voz.”.
Sendo assim, minha voz me fala que não estamos indo para o caminho certo se na jornada deixamos para traz pessoas exaustas, com quadros ansiosos, de burnout e depressivas. Eu acredito que eu e você estamos aqui para vivermos vidas alegres, felizes, inspiradas e criarmos nossas próprias artes pessoais e expressões.
Volto então à urgência da temática deste artigo para discutirmos sobre a mudança da lente da produtividade para uma lente que traga sustentabilidade na forma como trabalhamos, e da importância de incluirmos as necessidades humanas dentro de rotinas atualmente sufocadas por tanto a se fazer.
A produtividade que produz adoecimento
Durante décadas, e de forma mais intensa nos anos recentes, fomos ensinados a admirar quem faz mais, responde mais rápido e está sempre disponível. Mas, enquanto celebramos a “produtividade" (coloco entre aspas porque não considero esse modelo algo, de fato, produtivo), os sinais de esgotamento se multiplicam. O que antes era considerado comprometimento, em muitos casos, passou a ser confundido com exaustão. E talvez a pergunta mais importante para as organizações hoje não seja "como fazer as pessoas produzirem mais?", mas sim "como garantir que elas continuem saudáveis, criativas e capazes de produzir nos próximos anos?”. Faz sentido?
O problema não reside apenas em profissionais que já não conseguem entregar o que se espera deles sem comprometer a própria saúde. Ele está, principalmente, em um modelo de trabalho que normalizou o excesso: demandas intermináveis, metas inalcançáveis, equipes subdimensionadas para a realidade operacional e uma comunicação marcada pela falta de clareza sobre prioridades. Com isso, estamos criando profissionais cada vez mais estressados e sem criatividade, mas o que acho mais grave é que, o estresse já se tornou uma condição normal e aceitável para o ser humano. Segundo o relatório global da Gallup de 2026, 40% dos trabalhadores no mundo afirmam ter sentido muito estresse no dia anterior à pesquisa. Entre gestores, esse índice sobe para 45%. Dados recentes do Ministério da Previdência Social mostram que afastamentos por burnout cresceram mais de 800% em quatro anos, e o mesmo agravamento é relatado pelo Ministério Público do Trabalho, onde declaram que as denúncias relacionadas à saúde mental aumentaram cerca de 438%, também considerando os últimos 4 anos.
Minha escolha é de não pertencer ao time da normalização deste cenário insensível e desumano, e entendo que abrirmos portas para esta discussão nas nossas redes de contato, de apoio e profissionais, é uma das ações necessárias para termos a chance da reversão, mas mais importante que isso, é pensarmos em ações práticas para que as pessoas possam mudar suas lentes internas e se relembrarem da importância vital que é cuidarmos de nós mesmos.
A sabedoria antiga nos recorda que equilíbrio é saúde
Muito antes de a medicina moderna estudar os efeitos do estresse crônico, tradições milenares como o Yoga e a filosofia Daoísta já entendiam que a saúde humana depende de equilíbrio. Para estas culturas, sofrimento e desequilíbrio surgem quando vivemos em permanente agitação, ameaçados e desconectados dos ritmos naturais do corpo, da respiração e da mente, comportamentos que acabamos assumindo para atender às demandas atuais da vida contemporânea. Nossa desconexão com o orgânico se tornou tamanha, que já nem lembramos que normal é saúde; normal é o sentimento de paz; normal é se sentir bem consigo e com o mundo ao nosso redor.
A mudança não acontece de uma só vez, mas pode começar com pequenas escolhas diárias. Por isso, compartilho alguns passos que podem nos ajudar a retomar um caminho de mais equilíbrio, saúde e leveza no cotidiano.
- Conhecer nossos limites: é fundamental pararmos para refletir até onde conseguimos ir, quais são as nossas barreiras de proteção e em que momento começamos a comprometer nossa saúde emocional e mental. É nesse ponto que surgem as rachaduras por onde nossa energia, disposição e bem-estar começam a escapar.
- Comunicar nossos limites: aqui eu volto para a frase de Rick Rubin, que lindamente nos incentiva a honrar nossa singularidade e a reconhecer o valor da nossa própria voz, nos lembrando que a comunicação é uma ferramenta vital para que nossos colegas e lideranças entendam - e saibam - o que estamos vivendo, sentindo e enfrentando, compreendendo também a forma como operamos, nossas limitações, necessidades e sensibilidades. Dar voz ao que sentimos, sempre com clareza, respeito e autenticidade, pode reduzir desgastes e encurtar processos dolorosos e apertados, abrindo caminhos para novas interações nas relações profissionais e possíveis ajustes operacionais que venham contribuir para o bem-estar nos ambientes de trabalho.
- Lembrar de nós mesmos: quando o trabalho passa a exigir mais do que conseguimos oferecer, a primeira coisa que esquecemos somos nós. Deixamos de lado o nosso autocuidado: paramos de nos exercitar, de nos alimentar de forma saudável, de beber água, de descansar e de respeitar os nossos próprios ritmos. Lembrar que a nossa prioridade também precisa ser cuidar da gente, da nossa saúde e da nossa mente é essencial para que todas as outras entregas do nosso dashboard aconteçam com eficiência, qualidade e, acima de tudo, serenidade.
Há muito ainda a ser dito sobre esse assunto. Estamos apenas no início de uma grande jornada de transformação, tanto pessoal quanto corporativa. Espero que esse caminho nos conduza a mudanças profundas, capazes de recolocar no centro das nossas decisões aquilo que nunca deveria ter saído de cena: o ser humano, com suas vulnerabilidades, seus limites e sua humanidade.
Sofia Severo
Graduada em Design de Produto pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, com pós-graduação em Artes Visuais: Cultura e Criação, Sofia Severo atua há mais de 20 anos nas áreas de comunicação, marketing, design e gestão de projetos. Atualmente é Coordenadora de Projetos Especiais na United Way Brasil, conduzindo iniciativas de impacto social com uma abordagem colaborativa e centrada nas pessoas. Sua formação em Reiki, Dança Terapêutica e Yoga marcou profundamente sua visão sobre desenvolvimento humano e continua influenciando a forma como conduz projetos, lidera equipes e compreende a comunicação. Hoje dedica seus estudos à intersecção entre bem-estar, criatividade e comunicação, acreditando que organizações mais saudáveis constroem marcas, equipes e relações mais conscientes e sustentáveis.