Gerenciar é lidar com incertezas

Publicado em 25 de junho de 2025 às 11:43

Essa é uma realidade constante para quem trabalha com projetos criativos, mesmo que muitos ainda tentem manter a ilusão do controle total. A verdade é que o caos faz parte do processo – ele não é um erro ou um desvio, ele é o fluxo acontecendo. E mais do que reconhecê-lo, meu convite aqui é assumir o caos, entender como ele opera e encontrar uma forma de trabalhar com ele, em vez de tentar anulá-lo.

 

Rick Rubin, no livro O Ato Criativo, diz que criar é estar confortável na incerteza. Mas a gente sabe como é difícil estar “confortável” no meio de uma entrega gigante, prazo apertado, briefing amplo, cliente indeciso, expectativa de inovação e ego de equipe, tudo junto e misturado. E o detalhe é que isso raramente acontece em um único projeto. A sensação de caos vem justamente da sobreposição de tudo isso. Mas quando a gente aceita que esse é o cenário real, para de idealizar e passa a criar com mais realismo e, por consequência, com mais leveza também.

 

Se quisermos entender o que realmente acontece no dia a dia de uma produtora ou agência, basta olhar para uma estrutura triangular que se repete: a relação entre cliente > agência > produtora. São três olhares diferentes tentando atingir o mesmo objetivo, o que já é desafiador por si só. Internamente, essa triangulação se desdobra em projetos > atendimento > criação, por exemplo. O cliente busca inovação, o atendimento tenta traduzir e equilibrar, e a criação quer fazer aquela arte que vai ganhar Cannes. No meio disso tudo está quem faz a gestão dos projetos, tentando equilibrar todos os pratos ao mesmo tempo. Essa dinâmica é complexa, mas quando entendemos o tabuleiro em que estamos jogando, conseguimos criar estratégias melhores e abrir espaço para que as ideias fluam em vez de travar.

 

A criatividade precisa estar presente não apenas no que entregamos, mas em como entregamos. Ser criativo não é apenas pensar em uma campanha brilhante ou em uma estética inovadora, é também saber resolver os imbróglios no meio do caminho sem ser consumido. Usar a criatividade não cabe só a equipe de criação e criar não cabe só em estar dando vida a uma obra de arte que vai pra galeria, mas é também o jeito que você olha para as coisas. Ela mora no ato de tomar decisões criativas: como reagir a um erro, como ter uma conversa difícil, como lidar com o imprevisto. Criatividade, nesse sentido, é estratégia. É improvisar com propósito, é dar forma a algo mesmo quando as condições são instáveis. E isso exige intenção.

 

Mais do que criar, a gente precisa organizar com esse olhar. Isso passa por algumas escolhas simples, mas fundamentais: manter documentos vivos, que mudam conforme o projeto muda – documento que não muda, morre, e mata o projeto junto. Fazer alinhamentos claros e recorrentes, porque ninguém aqui tem bola de cristal. Criar cronogramas com margem de erro, porque o imprevisto vai acontecer e precisa estar previsto no fluxo. Uma planilha atualizada, combinados bem feitos e espaço pra respirar são o que sustentam um ambiente onde o caos criativo pode existir sem virar desorganização. É o que dá base segura para o projeto acontecer.

 

E por mais óbvio que pareça, isso tudo só se sustenta com uma comunicação clara. Comunicação é o que mantém um projeto de pé. Quando ela é falha, surgem ruídos, retrabalho, incêndios. Centralizar as informações, deixar combinados documentados, conseguir dar status honestos, tudo isso alivia a tensão e permite que as pessoas trabalhem com mais tranquilidade. E se algo atrasar ou travar, tudo bem – desde que seja dito. O problema não é o erro, é o silêncio. Ficar quieto deixa espaço para a criatividade entrar no lugar errado, criando histórias, inseguranças e ruídos.

 

Outro ponto importante: nem sempre o que o cliente diz é o que ele realmente quer. É preciso ouvir com atenção, peneirar e traduzir o que está sendo dito para uma linguagem que faça sentido para a equipe. Comunicação é afinar expectativas. É cuidar da mensagem para que ela seja compreendida por todos os envolvidos.

 

Tudo isso só funciona se houver uma base de confiança. E construir uma cultura de confiança transforma completamente a forma como uma equipe funciona. Quando há confiança, há espaço para autonomia. As pessoas sabem o que têm que fazer, têm liberdade para decidir e responsabilidade para entregar. Mas isso só acontece se a liderança for segura o suficiente para lidar com os imprevistos do caminho – porque a gente sabe, eles vão aparecer. Lideranças que surtam diante do primeiro obstáculo bloqueiam a criatividade. Já as que escutam, perguntam antes de responder e confiam na equipe criam um ambiente de fluxo. Criar junto é ajustar no caminho, é ter movimento, é entender que a força da criatividade está na capacidade de adaptação e não só no resultado final.

 

Outro dia ouvi o Snoop Dogg dizer, em uma entrevista, que existem momentos em que você precisa sentar no banco do passageiro, colocar o cinto e confiar em quem está dirigindo. E outros em que é a sua vez de conduzir e brilhar. Essa metáfora é perfeita para descrever a gestão criativa. Saber a hora de liderar e a hora de apoiar, a hora de improvisar e a hora de estruturar.

 

Porque o caos vai vir. Sempre vem. Mas a desorganização não precisa vir junto. Quando a gente aceita o caos como parte do processo e organiza o que é possível com inteligência, tudo flui com mais autenticidade e potência. E aí sim, a criatividade pode brilhar com os pés no chão.


Déborah Moreno

Profissional com ampla experiência nos mercados de artes, editorial e publicitário, possui formação em Fotografia e Gestão de Projetos, além de especialização em Produção Executiva e no desenvolvimento de habilidades voltadas para gestão, liderança e resolução de conflitos. Atualmente, atua como Head de Operações na Asa Onze, liderando a gestão e produção de projetos publicitários e editoriais, bem como desenvolvendo soluções estratégicas para demandas específicas. Ao longo de sua carreira, realizou projetos para grandes marcas como PepsiCo, Itaú, Riachuelo, Vivara, Quebrando Tabu, Ri Happy, Daki, Nomad, AMBEV, RaiaDrogasil, Dasa, Petz, Toyota e iFood, ampliando sua expertise e entregando resultados expressivos em diferentes setores do mercado. Paralelamente, dedica-se a iniciativas autorais que unem criatividade e propósito.