Trabalhar na publicidade é viver no meio do fogo cruzado entre expectativa e realidade. É equilibrar ideias incríveis com prazos apertados, tentar agradar o cliente sem enlouquecer o time interno. E, nesse cenário desafiador, duas figuras são fundamentais para que tudo aconteça de forma minimamente organizada: o time de atendimento e gestão de projetos.
Esses dois papéis não são a mesma coisa — embora em alguns casos realmente sejam representados pela mesma pessoa.
Na publicidade tradicional, percebiam o atendimento como a pessoa que possuía todas as respostas para o cliente: datas na cabeça, briefing na ponta da língua, agenda organizada, broncas na medida certa e presente de fim de ano — quando merecido, claro (rs). Era, basicamente, o “responsável geral” pela conta. E, em muitos lugares, essa visão ainda persiste.
Mas o jogo mudou
Os projetos se tornaram mais complexos, outras áreas começaram a entrar em cena — mídia, influência, redes sociais, conteúdo, tecnologia — e os times ficaram mais diversos, os prazos mais curtos, e ficou evidente: ninguém dá conta de tudo sozinho.
Foi aí que as agências começaram a dar espaço para a área de projetos. Não apenas como um olhar para o fluxo, mas como uma necessidade real de estrutura, organização e previsibilidade. E a área de projetos já é essencial em mercados como tecnologia e engenharia — por que seria diferente na publicidade?
O atendimento é quem escuta o cliente de verdade
Quem percebe, pelo tom de voz, quando tem algo atravessado. Quem traduz uma necessidade mal formulada em uma demanda real. É quem sabe quando dizer “isso a gente resolve” e quando dizer “preciso entender melhor antes de te responder”. Não é só comercial: é relacional. É ponte, tradução, escuta atenta e afeto profissional.
A gestão de projetos entra para a ideia tomar forma
É quem desenha o caminho, organiza os prazos, levanta os riscos, estrutura as entregas. Quem entende que o desafio não é só o que vai ser feito, mas como, por quem, quando e em que ordem de prioridade. É o olhar de quem cuida do backstage para que o espetáculo aconteça do jeito certo — e na hora certa.
Nesse contexto, vem o clássico embate: o atendimento promete uma entrega e o time de projetos pergunta: “com que recurso?”. Ou projetos segura o cronograma e o atendimento refuta: “mas o cliente não pode esperar mais”.
Quando não há diálogo, o projeto vira uma disputa de versões. Quando há colaboração, a entrega ganha força.
No fim das contas, o segredo está menos no cargo e mais no acordo entre funções
Esse alinhamento entre as duas áreas pode — e deve — ser um trunfo. De fato, em alguns contextos, pode até fazer sentido que esses papéis estejam na mesma pessoa, dependendo do tamanho e da complexidade do projeto.
Nessa situação: quem escuta o cliente e traduz para o time? E garante que o briefing esteja completo? Mantém o time informado sobre as mudanças de rota? Quem acompanha a produção? Quem filtra o feedback do cliente? Se essas respostas não estão claras, o projeto emperra. Se estão, flui.
Outro ponto importante que gostaria de destacar é que não se trata de proteger o “lado da agência” ou o “lado do cliente”. O papel do atendimento não é só acalmar e o da gestão, não é apenas cobrar. Ambos trabalham pelo mesmo objetivo: que a entrega aconteça com sentido, qualidade e dentro do que foi combinado. Dessa forma, precisam de autonomia, escuta e colaboração real — de todos os times envolvidos.
Já estive nos dois lados e já fui quem levou o briefing cheia de empolgação e depois percebi que aquilo não cabia no escopo e também já fui quem puxou a régua e virei quem “só vê problema”.
E hoje sinceramente entendo, o melhor atendimento é aquele que conhece o processo e o melhor gestor de projetos é aquele que respeita a complexidade do relacionamento.
O lugar ideal é onde essas duas frentes trabalham juntas — sem competição, sem ruído. Porque esses dois papéis não concorrem, se complementam. No fim, o cliente quer resultado, a equipe quer clareza. E a agência ou produtora precisa dos dois. Porque, como em quase tudo na vida, a diferença não está em quem fala mais alto — mas em quem escuta melhor, organiza o que ouviu e transforma isso em entrega.
Déborah Moreno
Profissional com ampla experiência nos mercados de artes, editorial e publicitário, possui formação em Fotografia e Gestão de Projetos, além de especialização em Produção Executiva e no desenvolvimento de habilidades voltadas para gestão, liderança e resolução de conflitos. Atualmente, atua como Head de Operações na Asa Onze, liderando a gestão e produção de projetos publicitários e editoriais, bem como desenvolvendo soluções estratégicas para demandas específicas. Ao longo de sua carreira, realizou projetos para grandes marcas como PepsiCo, Itaú, Riachuelo, Vivara, Quebrando Tabu, Ri Happy, Daki, Nomad, AMBEV, RaiaDrogasil, Dasa, Petz, Toyota e iFood, ampliando sua expertise e entregando resultados expressivos em diferentes setores do mercado. Paralelamente, dedica-se a iniciativas autorais que unem criatividade e propósito.