É algo que se demora a ler, de fato. Vejo que, de uma forma bem generalista, muitos entendem essa função de gerenciar projetos como, principalmente, garantir que tudo esteja sob controle: prazos claros, escopo definido, tarefas organizadas, combinados registrados. E, de fato, nada disso é dispensável. Mas com o tempo, e com alguns projetos dando errado mesmo quando “estava tudo certo”, ficou claro que o problema quase nunca estava na falta de método.
Os projetos que mais se desgastam não são os menos organizados e, sim, os menos compreendidos.
Na prática, grande parte do trabalho nunca está no cronograma ou nas plataformas de gestão de tarefas. Está, na realidade, nas conversas paralelas, nas expectativas que ninguém verbalizou direito, nas decisões que foram empurradas para frente esperando que o processo resolvesse sozinho. Mais do que isso, está diretamente na tradução do que o cliente queria dizer quando ainda estava confuso, e do que o time precisava ouvir quando já estava sobrecarregado, tudo o que acontece nas entrelinhas e quando quase nada vem devidamente decodificado. E vai da delicadeza da leitura de cada um, para remar esse barco de forma segura e não cega.
Digo com certeza que em muitos momentos, gerenciar é muito menos sobre acompanhar entregas e mais sobre sustentar alinhamentos. Dizer o que não é o combinado antes que alguém se frustre, explicar a diferença entre urgência e prioridade, dar nome às coisas quando ainda estão difusas. É um trabalho contínuo de leitura e de entrelinhas, sendo do cliente, do time, do momento do projeto e até, quase, do futuro.
Existe uma camada do projeto que nunca aparece no escopo, na SLA ou na pauta do dia. Ler as entrelinhas não é sobre uma subjetividade, mas é uma parte intrínseca desse trabalho.
Especialmente em projetos criativos, onde o que está sendo construído ainda não existe por completo no início, e muitas das decisões se revelam ao longo do caminho. E com o tempo, fica evidente que método nenhum dá conta do que não foi realmente compreendido. Ferramentas organizam, processos ajudam, mas não substituem a capacidade de perceber quando algo está desequilibrado, no detalhe, antes mesmo de virar algo de verdade.
Há então, um espaço para enxergarmos a gestão de projetos muito mais como um exercício constante de tradução e de manobra. Traduzir uma expectativa em acordo real, trazer algo que ainda existe no mundo das ideias do cliente para o mundo palpável do time criativo. Elaborar ruídos em uma decisão possível e justa, costurar processos em algo que faça sentido para o time e contextos atuais daquele escopo.
No fim, projetos não falham porque não foram medidos o suficiente, eles podem falhar quando ninguém se responsabiliza por sustentar o entendimento deles. E, é aqui nesse espaço, quase invisível, que eles se sustentam ou se perdem.
Déborah Moreno
Profissional com ampla experiência nos mercados de artes, editorial e publicitário, possui formação em Fotografia e Gestão de Projetos, além de especialização em Produção Executiva e no desenvolvimento de habilidades voltadas para gestão, liderança e resolução de conflitos. Atualmente, atua como Head de Operações na Asa Onze, liderando a gestão e produção de projetos publicitários e editoriais, bem como desenvolvendo soluções estratégicas para demandas específicas. Ao longo de sua carreira, realizou projetos para grandes marcas como PepsiCo, Itaú, Riachuelo, Vivara, Quebrando Tabu, Ri Happy, Daki, Nomad, AMBEV, RaiaDrogasil, Dasa, Petz, Toyota e iFood, ampliando sua expertise e entregando resultados expressivos em diferentes setores do mercado. Paralelamente, dedica-se a iniciativas autorais que unem criatividade e propósito.