“Isso fulano já está cuidando” a frase mais cara que um gestor pode dizer

Publicado em 5 de maio de 2026 às 15:47

“Recentemente, conduzi uma análise de conformidade com a NR-1 em uma empresa. Levantamos riscos psicossociais sérios: sobrecarga crônica, ausência de feedback estruturado, líderes sem preparo para gerir pessoas em sofrimento. A resposta dos sócios, dita com naturalidade desconcertante: “isso a fulana já está cuidando.”

A reunião seguiu. O tema mudou. E os riscos continuaram lá vivos, crescendo, acumulando passivo humano e jurídico.

Mas eu entendo por que isso acontece. Saúde mental ainda soa para muitos gestores como um tema de RH, de psicóloga, de programa de bem-estar com nome bonito. Um tema humano, sim. Mas não um tema do negócio. Esse é o erro. E ele tem preço.

O que já está acontecendo - em números que nenhum CFO ignora

Esses números não estão num relatório de RH. Estão no balanço das empresas diluídos em sinistralidade de plano de saúde, turnover silencioso, produtividade que escorrega sem que ninguém perceba, e ações trabalhistas que crescem 400% em dois anos.

O custo que não aparece no relatório, mas está lá

Gestores monitoram absenteísmo. Mas o custo maior tem outro nome: presenteísmo. É quando o colaborador está sentado na cadeira ou na reunião, mas, mentalmente exausto. Entregando 50% da sua capacidade enquanto a empresa paga 100% do salário.

Pesquisas indicam que o presenteísmo médio nas empresas brasileiras chega a 32%. Isso significa que, em uma equipe de 10 pessoas, o equivalente a mais de 3 cadeiras está ocupado por corpos presentes e mentes ausentes.

Nenhuma planilha captura isso. Nenhum dashboard acende o alerta. O prejuízo simplesmente acontece em decisões ruins, em projetos que atrasam, em clientes que percebem a diferença antes da liderança.

E agora há um prazo e uma multa com seu nome

A partir de 26 de maio de 2026, a fiscalização da NR-1 passa a ter caráter plenamente punitivo. Empresas que não incluírem os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) ficam sujeitas a multas de R$ 6.708,08 por trabalhador exposto e não é uma multa única. Um auditor que identifique três falhas na mesma visita pode gerar autuações que facilmente ultrapassam R$ 20.000. Em casos de reincidência ou grave impacto comprovado, esse valor pode chegar à casa dos R$ 900 mil.

Há ainda o FAP (Fator Acidentário de Prevenção) empresas que geram mais afastamentos pagam mais impostos sobre a folha. Em uma simulação conservadora com folha de R$ 1 milhão, negligenciar os riscos psicossociais pode representar mais de R$ 500 mil adicionais no custo anual.

E isso sem contar o Ministério Público do Trabalho, que não está preso ao mesmo calendário da fiscalização e já investiga empresas com histórico de adoecimento mental independentemente do prazo de maio.

O que “ignorar o assunto” realmente custa por categoria

  • Produtividade: equipes em sofrimento entregam uma fração do que poderiam. Sem visibilidade, sem registro, sem alertas.
  • Turnover: substituir um colaborador custa entre 50% e 200% do salário anual. Ambientes adoecidos expulsam os mais talentosos primeiro.
  • Plano de saúde: sinistralidade alta pressiona reajustes anuais do contrato um custo recorrente que cresce junto com o adoecimento.
  • Passivo jurídico: em 2025, o termo ‘burnout’ apareceu em mais de 20 mil processos na Justiça do Trabalho. Cada processo é uma conta a pagar.
  • Reputação: employer branding não se controla mais por comunicação. Se controla pelo que as pessoas sentem e falam sobre trabalhar ali.

O que torna isso tão difícil de enxergar e tão fácil de ignorar

Gestores são treinados para resolver o que é visível, mensurável, urgente. Saúde psicossocial não acende alarmes. Não gera notificação no sistema. O colaborador que está a dois passos do burnout continua aparecendo nas reuniões, respondendo e-mails e entregando até o dia em que não consegue mais.

E é exatamente aí que mora o maior risco: o adoecimento se constrói no silêncio da normalidade. Uma meta impossível normalizada. Uma liderança que grita e é chamada de ‘intensa’. Uma cultura onde pedir ajuda é visto como fraqueza. Nada disso gera alerta. Tudo isso gera custo.

Delegar para ‘a fulana cuidar’ não é uma solução. É uma ilusão gerencial com prazo de validade. Porque quando o problema escala e ele vai escalar, nenhum tribunal trabalhista vai aceitar que a empresa não sabia. E nenhum balanço vai absorver o custo sem deixar marca.

Saúde mental é um ativo do negócio ou um passivo. Você decide qual.

Empresas que tratam saúde psicossocial como prioridade de gestão não como projeto de RH reduzem absenteísmo, diminuem turnover, fortalecem cultura e constroem blindagem jurídica. Não por altruísmo. Por estratégia.

Empresas que continuam delegando, minimizando ou ignorando o tema estão construindo, silenciosamente, uma dívida que vai cobrar juros nos seus colaboradores, no seu caixa e na sua marca.

A pergunta não é mais ‘vamos cuidar disso?’
A pergunta é: quanto você já está pagando por não cuidar e ainda não percebeu?

Fontes
Ministério da Previdência Social (2024/2025)  ·  IBEF-SP  ·  Banco Mundial / OPAS  ·  Vittude Censo de Saúde Mental  ·  ANAMT / INSS  ·  NR-1 Portaria MTE 1.419/2024 e Portaria MTE 765/2025


Gislaine Bertin
Gestora Financeira Estratégica especializada no ecossistema de publicidade, entretenimento e grandes produções. Com trajetória consolidada em agências como Grupo TV1, Artplan, Corazon Filmes, Tech and Soul, atuou na gestão e viabilidade de projetos de alta complexidade e escala global, como o Rock in Rio e o Lollapalooza. É focada em transformar o departamento financeiro em um centro de inteligência e governança, unindo o rigor operacional à agilidade do mercado criativo. É formada em Administração com MBA pela University of California, Riverside (UCR).