Questões emocionais e o papel da psicologia na gestão de projetos

Lidar com a pressão do trabalho é algo muito complicado e tem sido o principal motivo que eu presencio quando o assunto é turnover e até mesmo para o profissional desistir de vez da carreira de projetos.

Fato é que precisamos encarar que a pressão faz parte do trabalho em si, tal como outras profissões possuem outros desafios e competências necessárias para realizar o trabalho. A questão é como o profissional encara este obstáculo. Neste artigo gostaria de falar de alguns pontos que considero importantes, como: reconhecer o problema, acompanhamento profissional, evitar “produtos” de mercado e colocar o “eu” como prioridade.

Me recordo, que a pressão também foi o meu primeiro desafio na carreira como GP e lidar com isso requer conhecimento tácito, que de fato não é possível quando estamos tendo o nosso primeiro contato com as situações do dia a dia.

Pois bem, minha primeira experiência como GP foi a melhor que pude ter neste aspecto, pois foi a mais adversa possível: era o único GP da empresa (ou seja, não tive mentoria de outro profissional da área), não possuía conhecimento tácito e nem teórico quando o assunto era soft skills, me colocaram para resolver alguns problemas bem cabeludos (afinal, eu sabia disso e  aceitei o desafio desde o início), e o pior, estava em uma ambiente muito mais desafiador do que é a média, e não tinha noção disso.

Acredito que o motivo que fez eu não desistir da carreira como outras pessoas, foi todo o contexto que eu carregava. Eu de fato não estava ali de “paraquedas”. Antes de estar empregado na área, fiquei imerso estudando gestão de projetos. Eu de fato queria estar ali e havia me preparado para isso. Na ocasião, eu via a pressão como algo “normal” da profissão, e portanto, parte do desafio que eu precisava enfrentar. 

O profissional novo no mercado e que está experimentando a profissão, pode se assustar, principalmente se não tiver consciência prévia e esse desafio se mostrar como uma surpresa para ele. Temos de ter a percepção de que ao mesmo tempo que a procura por profissionais aumenta,  esse tipo de coisa faz com que os novos profissionais tenham uma carreira precoce. Precisamos de conscientização, transparência na hora de contratar e suporte interno. O profissional, por outro lado, precisa se preparar para o desafio e investir pesado nisso. Enfim, continuemos o meu caso com as pressões de trabalho.

Identificando o problema

Em um primeiro momento, minha primeira reação foi destinar o meu tempo livre diariamente, para caminhar e refletir as relações cotidianas, além de treinar minha oratória para minimizar os conflitos (faço até hoje). Também dividia algumas situações com amigos e familiares, que sempre foram meus grandes santuários para evolução.

O problema é quando as adversidades não são esporádicas, mas sim constantes. Estar constantemente em um ambiente que drena a sua saúde emocional, pode ser muito perigoso e o maior problema é não conseguir identificar isso.

No meu caso, por exemplo, fui “empurrando com a barriga” com essa mentalidade de que tudo fazia parte do trabalho e iria passar conforme fosse adquirindo mais contato com a situação.

Comecei a mudar este conceito quando constantemente quase me envolvia em acidentes de trânsito entre o trabalho e minha casa, por estar mal emocionalmente e completamente dominado pelo sentimento negativo daquelas situações. Como me locomovia de motocicleta, a possibilidade de me acidentar no trânsito e até ferir outra pessoa estava perto de se tornar realidade, tendo em vista que praticamente toda semana eu passava “por um triz” daqueles.

Problema identificado, hora da solução

Sabendo que apenas o apoio familiar e dos meus círculos sociais não estavam sendo suficientes para suprir o problema, resolvi fazer uma pesquisa e adentrar em vários temas voltados a soft skills. Entrei de cabeça no que estava mais em alta naquele momento: PNL! Haviam muitos cursos, livros best-seller, artigos, gurus, etc. No desespero de me agarrar em qualquer galho para não afundar de vez, me inscrevi sem hesitar no melhor treinamento que eu encontrei aqui no Brasil.

Não me culpo pela decisão do PNL, pois estava realmente fragilizado com esse negócio de ser GP (risos), mas hoje vejo que foi uma das piores escolhas que eu fiz. Toda estratégia de divulgação do curso era muito apelativa e direcionada nas fraquezas dos indivíduos e durante os treinamentos, me deparei com outras pessoas, que assim como eu, possuíam problemas decorrentes do trabalho. 

Hoje olho para trás e considero aquela abordagem bastante imprópria e descuidada, pois ali tinham pessoas que na verdade precisavam de um acompanhamento clínico e psicológico. A questão não é deixar de oferecer o treinamento, mas ter a consciência de alertar as pessoas (desde o início),  que as técnicas não vão solucionar problemas mais sérios relacionados a ordem de trabalho. Omitir esse tipo de informação sabendo que é um ambiente onde estes casos são frequentes, é um pouco irresponsável, pois o indivíduo pode inclusive não buscar ajuda por pensar que pode resolver os problemas com “técnicas caseiras”.

Durante o treinamento, aprendi diversas ferramentas que considero interessantes e úteis até hoje (principalmente os pressupostos e técnicas de comunicação), contudo sempre fui uma pessoa bastante cética e racional e achava toda aquela coisa de “acreditar” nos métodos para ver o benefício, conversa afiada rs. Essa percepção se fortalecia quando questionava a respeito da comprovação científica das técnicas. Até onde sei, nenhuma revista científica reconhece essas ferramentas.

Aonde quero chegar? Esse tipo de conhecimento é inútil? Não, de forma alguma, contudo muitíssimo cuidado. Como eu comentei no início do artigo, regularmente o GP está lidando com situações muito barra pesada, na qual as questões precisam ser tratadas com seriedade e endereçadas para um profissional correto! Estou falando de psicólogo e as vezes, psiquiatra.

Outro problema identificado, outra solução

Como comentei anteriormente, o treinamento de PNL não me trouxe muitos resultados práticos. Continuei tentando “acreditar” e passei a ler boa parte da sua literatura e fazer os exercícios propostos. Ainda sem muitos resultados, continuei tocando as coisas do dia a dia “cambaleando”, até trocar de agência, e dali em diante ter experiências de trabalho um pouco mais tranquilas. 

De fato, a minha primeira experiência fez com que eu aprendesse a lidar muito fácil com as pressões dos trabalhos seguintes e infelizmente até moldou um pouco a minha personalidade, de alguém mais sensível para uma pessoa com a personalidade um pouco mais dura e fria em  situações de trabalho. Característica que percebo em outros colegas da área.

Anos depois entrei em uma pilha de “workaholic”. Ficava empolgado com assuntos de trabalho e conquistas de projetos, além de viver em prol da empresa. Muitas pessoas também faziam isso e então parecia normal, contudo, mais uma vez, o excesso misturado com a prolongação começou a trazer a tona novos problemas: estresse, dificuldade de “desligar” de pensamentos relacionados a trabalho e também de estabelecer outros diálogos que não este.

O problema com certeza era menos grave, mas assim como muitas pessoas abandonam o tabaco, decidi que queria mudar drasticamente para uma pessoa cada vez menos envolvida e relacionada ao mundo do trabalho. Desta vez busquei um tratamento psicológico e foi a melhor decisão!

Ao buscar um profissional da psicologia é muito importante fazer uma pesquisa para conhecer minimamente as linhas de trabalho e especialidades do profissional. No meu caso, contratei uma profissional voltada para uma linha que apoiava em questões mais pontuais e de curto prazo, além de possuir um background especializado em questões de trabalho. Por coincidência do destino, essa profissional também já havia estudado gestão de projetos antes de ingressar na psicologia.

O que eu aprendi?

Obviamente seria impossível descrever todas as minha sessões neste artigo, contudo o profissional da psicologia vai te ajudar a resolver os problemas com profundidade, fazer reflexões utilizando o bom senso, colocar os seus contextos específicos para análise, além de te incentivar no caminho dos bons hábitos até que você mesmo consiga fazê-los por conta. Segue alguns pontos que tive a oportunidade de refletir após as sessões:

  • Equilíbrio entre vida pessoal e profissional
  • Importância de evoluir outras áreas da vida igualmente
  • Conseguir expor para outras pessoas de uma maneira respeitosa, o que você considera ajuda e o que considera encargo, como forma de estabelecer limites 
  • Compreender diferenças entre o seu campo de atuação e problemas de operação e/ou empresa
  • Diferença entre “esticar” o horário e dar a mão algumas vezes / fazer disso parte da sua rotina de trabalho
  • Compreender o que está ao seu alcance
  • Conseguir estabelecer os seus limites para outras pessoas, visando a sua saúde e bem estar pessoal
  • Colocar o seu bem estar pessoal e saúde acima das demais questões
  • Tratamento com pessoas: fazer abordagens diferentes e ter auto-crítica
  • Como evitar “heroísmo” e compreender que você depende do coletivo e de uma estrutura de recursos para entregar seus projetos
  • Quando uma pressão faz parte do trabalho / extrapola os limites do normal 
  • Minimizar alguns problemas do dia a dia, entender que acontecem e estar disposto a ajudar
  • Compreender seus limites emocionais e priorizá-los (de verdade)

Com a lista acima, não preciso nem falar o quanto eu evoluí como pessoa e também como GP. Hoje eu considero a psicologia um investimento indispensável para todo o GP que quer seguir a carreira, mas está enfrentando algum problema de ordem emocional que impacta na sua área de atuação.

Você é o foco!

Tão importante quanto procurar profissionais corretos, é preciso também ficar ligado para não cair em armadilhas que te façam agir para uma direção contrária a sua saúde. A literatura administrativa, por exemplo, frequentemente coloca o cliente como foco. Vejo muita gente indo ao pé da letra com esse tipo de coisa, e pra piorar, reproduzindo esse tipo de discurso sem qualquer tipo de racionalidade e limite. Você é o foco! Saúde, bem estar, cargas equilibradas, operação funcionando minimamente bem (para poder atender bem o seu cliente), tudo isso vem primeiro…depois é possível ter o foco em outros campos com prioridade 2 em diante. Cuidado para não inverter as posições.

Ser um bom GP não está relacionado a fazer a entrega ou atender bem o cliente a qualquer custo e circunstância de temperatura e pressão, mas sim, sobre fazer as coisas certas, e uma delas, sem dúvidas, é cuidar de você.

Para finalizar, costumo dizer, que um bom profissional de projetos precisa se preparar para uma maratona e não para uma corrida de 300m, ou seja, não adianta focar apenas na entrega em si e adoecer na mesma velocidade que deseja resolver os problemas. 

Quando estamos submersos nas pressões do cotidiano, é difícil sairmos para respirar na superfície, mas precisamos cada vez mais ter essa consciência para bens maiores, como: saúde, duração da carreira, maturidade do setor e menos pessoas desistindo da nossa área de atuação.

Pense nisso!


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