O mercado de trabalho ainda possui diferenças entre o gênero dos profissionais. Segundo o IBGE, as mulheres ganham 20,5% a menos do que homens. O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) aponta que a diferença entre os colaboradores com ensino superior é ainda maior, chegando a 38%. No segmento de diretores e gerentes de empresas, a diferença foi de 29%.

Karina Rishi, Gerente de Recursos Humanos Sr. na Jüssi, alertou que essa é uma questão problemática que ainda ocorre bastante no Brasil. “Devemos ter em mente que quando contratamos profissionais, estamos avaliando suas competências de acordo com a posição e, não, o gênero das pessoas. O racional deve se manter em termos salariais com o que condiz com as funções e o cargo da pessoa”, afirmou Karina.

Com mulheres na gestão, a luta contra a diferença salarial entre gêneros é um tema relevante. “Hoje, como gestora, também me preocupo em sempre me atentar para esse ponto e construir uma empresa que seja igualitária em todos os sentidos”, disse Pâmela Rosa, sócia da agência Batuca.

Apesar da questão estar sendo debatida, a previsão de equiparação é lenta. Segundo o Fórum Econômico Mundial, o Brasil levará cerca de 100 anos para igualar salários de homens e mulheres.

Outra questão importante para o mercado publicitário prestar atenção está nas brincadeiras e práticas machistas, que muitas vezes podem ser qualificadas como assédio moral ou sexual. Karina contou que se sente privilegiada por ter líderes que respeitam o trabalho e opiniões dela, mas que precisou enfrentar o machismo “descarado” e demonstrar a qualidade do trabalho de forma redobrada em empresas anteriores.

“Não ter me deixado abalar e me fortalecer a partir das desavenças pelas quais passei fez parte do que sou hoje e, principalmente, de ser mais criteriosa no sentido de ter procurado novas oportunidades em lugares onde a cultura era diferente”, revelou Karina.

Em 2018, uma pesquisa do Instituto Datafolha apontou que 15% das brasileiras sofreram algum tipo de assédio no trabalho.

Diversos movimentos lutam contra esse tipo de crime. No mundo, movimentos como Time’s Up e Me Too partiram de Hollywood e trouxeram à tona histórias e nomes de casos graves. Recentemente, um dos produtores norte americanos mais influentes, Harvey Weinstein, foi condenado a 23 anos de prisão por crimes sexuais.

 

Desafios dobrados

Por ser mulher, as profissionais sofrem diversos preconceitos, principalmente, na hora de demonstrar que são capazes. “Acho que, para toda mulher, o mercado de trabalho demonstra uma carga de desafios maiores, em diferentes intensidades e âmbitos”, disse Pâmela. “Para mim, não foi diferente. Enfrentei e enfrento muitos desafios por ser mulher, principalmente no âmbito de me sentir menos escutada apenas pelo fato de ser uma voz feminina”, completou a publicitária.

Karen Hada, Diretora de Operações na F.biz, contou que quando está em uma discussão no ambiente de trabalho com maioria de homens envolvidos, o esforço para ter credibilidade é maior. “Eu tenho que amarrar mais pontas e, principalmente, conduzir com muita consistência para manter a posição que eu tenho”, relatou.

“Nosso desafio, mulheres, é ser líder e conquistar o espaço sem utilizar os mesmo códigos masculinos tóxicos”, disse Karen.

Além da falta de confiança sobre profissionais por conta do sexo, existem questões que rondam as mulheres, como, em muitos casos, na injusta decisão de escolher entre filhos e carreira.

É um bom momento para as agências pensarem em soluções que possam dar o suporte para mulheres na maternidade e nos casos de dupla jornada.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), a jornada semanal das mulheres dura em média 3,1 horas a mais do que a dos homens considerando o tempo dedicado ao emprego e ao cuidado da casa e de seus moradores.

 

Reconhecimento nas campanhas

Um mercado com a maioria de homens nas tomadas de decisão ainda reflete a falta de representatividade das consumidoras nas campanhas publicitárias. De acordo com uma recente pesquisa da Kantar, na qual foi perguntado o que as marcas podem fazer para representar melhor as mulheres, 61% dos brasileiros, independente dos gêneros feminino e masculino, concordam que elas precisam tratar as mulheres com respeito e precisam ouvir e pôr em prática as opiniões delas.

Sobre os dados da pesquisa, Pâmela Rosa questionou: “Como vamos falar com as mulheres se não temos mulheres criando conteúdos para as mulheres?”. Conforme Pâmela, no mercado publicitário é preciso ter equipes cada dia mais diversas, para que as mentes por trás das campanhas consigam dar voz a todos os públicos.

Um levantamento feito pelo Meio & Mensagem apontou que, no universo publicitário, apenas 26% da Criação são mulheres.

Para Karina Rishi, a luta por representatividade em campanhas publicitárias deve ser mais frequente durante o ano e não apenas próximo ao Dia da Luta pelos Direitos da Mulher.

“Deve existir a conscientização e a colaboração em massa para que a mensagem seja difundida a ponto de fazer com que as empresas detentoras das marcas, as agências e veículos de comunicação e publicidade e os próprios órgãos públicos da publicidade e propaganda sejam os primeiros a criarem barreiras neste tipo de falta de respeito que ainda vemos circulando por aí”, afirmou.

Segundo Karen, as marcas precisam olhar o resultado da pesquisa da Kantar de forma genuína e não como oportunidade de negócio. “Acho que o resultado de negócio deveria ser a consequência. Tratar com respeito e pôr em prática a nossa opinião deveria ser padrão, não só para nós mulheres, como também todo o público que quer consumir o produto/ serviço”, declarou. A Diretora de Operações alertou que só haverá uma relação entre marca e consumidor se realmente houver uma conexão genuína.

 

As mulheres na área de Projetos

A área de Projetos ganha cada vez mais importância no mercado publicitário e se torna uma oportunidade para mulheres e homens construírem uma carreira. “Temos visto muitas mulheres se especializando nessa área e entendo que este é um meio muito importante para que possamos evoluir em relação às oportunidades de trabalho e crescimento profissional”, disse Karina Rishi, Gerente de RH Sênior.

Para Pâmela, os projetos têm a capacidade de serem mais ricos se forem construídos por mentes que vivenciam as lutas. “A mulher tem papel fundamental em construir e lidar com projetos que falem diretamente com mulheres”, afirmou.

A Diretora de Operações, Karen Hada, disse enxergar como vantagem a mulher na área de Projetos. “Para liderar um projeto, ter uma gestão humana, é necessário desenvolver competências comportamentais e emocionais. Isso é, precisamos dessas competências para gerenciar equipe, tempo, escopo, prazo, orçamento etc.”, contou.

“E aí vejo uma vantagem nas mulheres e quero muito ver isso não sendo como uma vantagem e sim perpetuado para todos. As mulheres buscam o autoconhecimento, buscam se desenvolver emocionalmente”, completou Karen.

Segundo a Diretora de Operações, cada vez mais pessoas têm buscado algum tipo de desenvolvimento comportamental, mas ainda muito focado em melhorar performance, resultado e produtividade. “Se a gente estende esse desenvolvimento para melhorar nossas relações como um todo, na vida, o resultado no trabalho será uma consequência incrível, e não é uma visão romântica”, disse.

Esse texto faz parte do especial #GPower em homenagem ao mês das mulheres. Confira mais aqui!

Sobre o Autor

é jornalista formado no Centro Universitário de Brasília – UniCEUB. Analista de Comunicação no grupo Digitalks, Gabriel também tem experiência na área de jornalismo político. Trabalhou em agências de comunicação e na Câmara dos Deputados. Gosta de produzir conteúdos digitais e foca no Marketing Digital.

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